ARQUITETURA

Por que a IA inventa normas e acórdãos, e como o perito se protege

Peça a uma ferramenta de inteligência artificial um trecho de laudo sobre infiltração e é bem possível que ela cite uma NBR com número e item, um artigo de lei com prazo e um acórdão do STJ com relator e data. O texto sai fluente e convincente. O problema é que parte disso pode simplesmente não existir.

Esse fenômeno tem nome: alucinação. E, na perícia, ele não é um detalhe técnico. O perito assina o que escreve e responde perante o juiz, as partes e o conselho profissional. Um erro de fonte, de conta ou de raciocínio não é “um bug”: é uma responsabilidade.

Por que a IA inventa

As ferramentas de IA de conversa são modelos de linguagem. Elas aprenderam, com enorme quantidade de texto, qual continuação é a mais provável para cada começo de frase. Por isso escrevem bem: sabem como um laudo “soa”. Mas, quando falta a informação, não existe um botão de “não sei”. O modelo completa o texto do jeito mais provável, e um acórdão inventado tem exatamente a mesma cara de um acórdão real.

O risco cresce em três situações:

  • quando você pede números exatos (artigo, item, ano, prazo);
  • quando você pede fontes específicas (acórdão com relator e data);
  • quando você pede quantidade (“liste dez precedentes”), o que empurra a ferramenta a fabricar para cumprir a cota.

O teste que todo perito deveria fazer

No livro Descomplicando a IA na Perícia de Engenharia, proponho um exercício simples: ler um trecho de laudo “escrito por uma IA” e encontrar os erros. Num parágrafo curto aparecem uma área calculada errado (4,0 × 3,5 m não dá 16 m²), uma norma que não corresponde ao que se afirma, uma “foto 12” que não está entre as dez anexadas, um prazo do Código Civil trocado e um acórdão que não pode ser verificado.

Nenhum desses erros é sutil. Todos passariam despercebidos por quem lê com pressa e confia no tom seguro do texto.

Quatro regras que protegem o perito

  1. Anonimize antes. Nenhum dado pessoal ou de processo vai para a IA sem tratamento.
  2. Nunca confie em citação da IA. Norma, artigo e acórdão se conferem na fonte oficial.
  3. Marque o que não foi conferido. Tudo o que não tem fonte confirmada vai para uma lista de conferência.
  4. A IA ajuda; o perito decide e assina.

A instrução muda o resultado

Um dos pontos mais importantes do método é que a forma de pedir muda o comportamento da ferramenta. Uma instrução como “você sabe de cor os precedentes do STJ; entregue de 5 a 15 acórdãos” obriga a IA a fabricar. Uma instrução honesta (“você não tem acesso às bases oficiais; descreva a tese a pesquisar e onde pesquisar”) produz uma recusa útil: a ferramenta devolve o caminho da pesquisa, e não números inventados.

A IA não fica mais esperta com isso. Fica mais honesta, porque a instrução mudou.

Norma citada de memória é hipótese

Para as normas técnicas, o livro propõe a ficha de norma: um resumo feito por você, a partir do texto oficial, com número, edição vigente, itens-chave e data da conferência. A IA só afirma sobre normas aquilo que está numa ficha conferida. Sem ficha, ela escreve “a conferir no portal da ABNT”, em vez de citar de memória.

O papel do perito não muda

A IA pode organizar autos, minutar as partes repetitivas do laudo e revisar contas e referências com uma paciência que nenhum ser humano tem. Ela não vistoria, não mede, não decide o nexo causal e não assume responsabilidade técnica. Isso continua sendo do perito.


Quer o método completo? O livro Descomplicando a IA na Perícia de Engenharia mostra, passo a passo, como montar a estrutura de pastas, os agentes de revisão, as rotinas de anonimização e de conferência de citações, e traz um caso fictício completo para treinar.

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© 2026 Domingos Massa

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