
A inteligência artificial já está nas perícias trabalhistas. Ela resume autos, organiza fichas de EPI e revisa laudos com uma paciência que ninguém tem. Mas comete erros que, num laudo de insalubridade ou de periculosidade, decidem anos de adicional. Estes são cinco dos mais comuns.
1. A dose que não fecha
Peça a uma IA que some 4 horas a 90 dB(A) e 4 horas a 85 dB(A) e ela pode responder, com toda a segurança, que a dose é de 75%. Pelo quadro do Anexo 1 da NR-15, 90 dB(A) permite 4 horas e 85 dB(A) permite 8 horas: a dose é 4/4 + 4/8 = 150%, acima do limite. A regra é simples: a IA escreve a fórmula; a planilha faz a conta; o perito confere com o relatório do instrumento.
2. Critérios misturados
O quadro do Anexo 1 da NR-15 e a NHO 01 da Fundacentro usam fatores de duplicação de dose diferentes. A IA mistura os dois com frequência, e o resultado muda. O mesmo acontece com anexos que tiveram a redação substituída por portaria, como o de calor. NR se confere no texto oficial vigente, baixado do portal do governo, com a data no nome do arquivo.
3. A súmula ao contrário
É comum a IA “lembrar” que o fornecimento de EPI afasta o adicional. A Súmula 289 do TST diz, em essência, o oposto: o simples fornecimento do equipamento não exime o empregador, que deve tomar medidas para diminuir ou eliminar a nocividade, inclusive quanto ao uso efetivo. Súmula se lê no site do TST, não na memória da ferramenta.
4. A versão das partes tratada como fato
Na periculosidade, a pergunta costuma ser com que frequência o trabalhador entrava na área de risco. Quando as partes divergem, a IA tende a escolher uma versão e escrevê-la como fato. O laudo precisa separar o que o perito observou e mediu do que cada parte informou. A versão verdadeira, quem decide é o juiz.
5. Dados de saúde no lugar errado
Autos trabalhistas trazem ASOs, atestados, CAT e diagnósticos. Para a LGPD, dado referente à saúde é dado pessoal sensível. Se o objeto da perícia é o ambiente de trabalho, esses documentos nem precisam ir para a IA. O resto vai anonimizado, com a tabela de correspondência guardada fora da ferramenta.
O que a IA faz bem
Usada com método, a IA monta a cronologia de entrega de EPIs, aponta intervalos sem registro, compara PPP, PGR e LTCAT, organiza os quesitos já apresentados e revisa a minuta procurando contas erradas, fotos inexistentes e citações suspeitas. Ela não vistoria, não mede, não enquadra e não formula quesitos.
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